Genética para totós
Prever os resultados do acasalamento entre duas aves (ou qualquer outro animal) pode ser quase uma ciência oculta. Mas através da compreensão da genética, tudo fica mais simples, previsível e controlável.
Estas regras são válidas para qualquer espécie, animal ou planta, mas vou usar sempre que possível como exemplo a espécie com que estou mais familiarizado, o mandarim.
Os genes são o código que determinam todas as características de um ser vivo, desde o seu comportamento ao seu aspecto. Uma alteração num único gene pode causar uma alteração drástica no aspecto de um ser vivo, ou não ter qualquer efeito.
Ao aspecto visível do sujeito afectado pelos genes dá-se o nome de fenótipo. Ao aspecto de um indivíduo de uma dada espécie que não sofreu qualquer mutação dá-se o nome de fenótipo selvagem e este deve ser sempre o passo de partida para verificar o efeito dos genes.
É também importante fazer a distinção entre uma mutação e uma raça, pois apesar de ambos serem ambos efectados pelos genes, são dois conceitos completamente diferentes e enquanto o primeiro é perfeitamente previsível e calculável, o segundo é um pouco mais incerto. Uma raça é um conjunto de ndivíduos de uma espécie que partilham um dado conjunto de características. Estas não são o resultado de um único gene, mas sim o resultado da interacção de um conjunto complexo de genes, que evoluiram em conjunto ao longo de várias gerações.
Aquilo de que vou falar são as mutações. Uma mutação é uma alteração num gene, que normalmente provoca algum tipo de efeito. As mutações que nos interessam são aquelas que causam alterações no fenótipo.
Mas afinal onde estão os genes e como funcionam?
Os genes estão agrupados formando cromossomas e existe um par de cada cromossoma. O conjunto de todos os cromossomas forma o código genético de um individuo.
Um gene mutado ou seja, a versão do gene que provoca uma alteração de fenótipo, pode existir num dos cromossomas ou em ambos.
Caso exista em ambos os cromossomas é muito simples, a mutação manifesta-se.
Se existir uma versão do gene em cada cromossoma, é necessário um desempate e apenas uma das versões se manifesta. Este desempate não é por sorteio, existe um gene que pervalece sobre o outro.
Quando o gene mutado pervalece, a mutação diz-se dominante.
Se pelo contrário, a mutação não se manifestar, estamos perante uma mutação recessiva e seria necessário completar o par para se dar a alteração de fenótipo. Ao indivíduo que tem apenas uma cópia do gene que provoca a mutação recessiva dá-se o nome de portador.
Se eu juntar este casal, o que vai nascer?
Para responder a esta questão sabendo como funcionam os genes, é necessário saber como os genes se combinam durante a fecundação.
A combinação dos genes de uma cria pode ser vista como um sorteio, semelhante ao sorteio para os jogos da taça.
Cada um dos progenitores dá um cromossoma de cada par à cria, que recebe assim um cromossoma de cada progenitor para formar cada par.
A forma como é escolhido qual dos dois cromossomas vai ser transmitido à cria é completamente aleatória, pelo que cada versão do cromossoma tem 50% de probabilidades de ser transmitido à cria.
Com este conhecimento temos o que é necessário para prever os resultados, partindo do princípio que conhecemos o genótipo de ambos os progenitores e quais destes genes são dominantes ou recessivos.
Sabemos que nos mandarins as mutações peito laranja e bochecha preta são recessivas e a mutação face preta é dominante.
Imaginemos o seguinte casal:
Macho – Portador de bochecha preta e peito laranja
Fêmea – Face preta, bochecha preta e portadora de peito laranja.
A mutaçao face preta será transmitida pela fêmea a metade das crias (assumindo que existe apenas um gene com esta mutação).
A fêmea transmite o gene bochecha preta a todas as crias e metade delas receberá esta mutação também do macho.
Metade das crias recebem a mutação peito laranja da fêmea e metade destas receberá também o gene do pai, o que dá uma em cada quatro crias bochecha preta.
Podemos então calcular a probabilidade de um cria que combine todas estas mutações. 50% face preta, 50% das quais são bochecha preta e 25% destas apesentarão também a mutação peito laranja. Ou seja 50%x50%x25% = 6,25%, uma em cada 16 crias.
E o sexo?
O sexo é controlado por um par de cromossomas especial. Os cromossomas X e Y. No caso das aves, o macho tem o par de cromossomas XX e a fêmea XY. As mutações ligadas ao sexo estão normalmente associadas ao cromossoma X.
Uma mutação que seja recessiva e exista no cromossoma X não necessita de existir duplicada para que se manifeste na fêmea, uma vez que existe apenas uma copia do cromossoma X, mão sendo assim necessário qualquer desempate.
Sabemos que a femea transmite o cromossoma X a todas as filhas e o cromossoma Y a todos os filhos.
Tomemos por exemplo a mutação diluido, recessiva e ligada ao sexo. Uma fêmea que seja diluida transmitirá este gene a todos os filhos, que serão portadores, e a nenhuma das filhas. Um macho diluido dará origem a fêmeas sempre diluidas e machos portadores (se a fêmea não for diluida, nesse caso todos os filhos serão diluidos).
Estas são as regras básicas da genética, que servem para a maioria dos casos. Existem casos especiais, como mutações que ocorrem em genes existentes no mesmo cromossoma, nestes casos seria necessário recombinar os genes dentro do próprio cromossoma, o que ocorre num fenómeno mais complicado e que não vou abordar. Existem também algumas confusões criadas pela linguagem, como combinações de mutaçẽs que são consideradas como uma mutação quando na realidade são mutações diferentes.
No meu caso acaba por ser mais um hobby que uma profissão, mas sim, de formas diferentes na mesma área
Olá!
Pelos vistos somos colegas de profissão! Só que em áreas diferentes!
A genética é a base da vida e da compreensão da mesma!
Olá,
Ainda bem que gostas
Olá gostei do teu blog, gosto muito de aves e hoje aprendi qualquer coisa.
bj